Duas perguntas para Jacqueline Rose
A autora de Sobre a violência e sobre a violência contra as mulheres e A peste é um dos principais nomes do feminismo inglês

Escrever livros de não ficção sobre grandes e fundamentais problemas da humanidade é um ato de fé ou de desespero?
Ambos ou nenhum dos dois. A fé é muito confiante, já o desespero cede demais à escuridão. A epígrafe de A peste: viver a morte em nosso tempo traz esta frase de Simone Weil: “Não estamos desesperançosos. O simples fato de que existimos, de que concebemos e queremos outra coisa além do que existe, constitui para nós uma razão de ter esperança”. Esse trecho está no livro Opressão e liberdade, que ela escreveu em 1933, o ano em que Hitler foi nomeado chanceler. Então, a liberdade consiste no trabalho e em estar presente – em um nível de consciência diferente do que parece ser dominante. É por isso que o pensamento crítico se torna tão vital em tempos como os nossos, de autocracia desenfreada, ditadura e fascismo incipiente. E é também tão contestado em instituições de ensino em todo o mundo. A psicanálise também é crucial, já que cria um espaço de liberdade para o pensamento aberrante e inconsciente.
Quais caminhos e soluções você vê para o combate à violência contra as mulheres?
Essa, com certeza, é uma das perguntas mais difíceis. Se você ler a psicanalista Melanie Klein, ela escreve sobre como a violência social contra as mulheres é comparada à violência entre os homens (que é meio que esperada que eles pratiquem), já que a primeira é precipitada por uma identificação/proximidade anterior ao corpo da mãe, que tem que ser invalidado para que um menino se torne um “homem”. É uma estrutura letal que abriga e provoca ataques de homens contra mulheres sempre que eles sentem que seu poder está ameaçado – o que, claro, é sempre o caso, já que a ideia de que alguém finalmente possui poder é fraudulenta. Julia Kristeva escreve sobre o cerne fóbico da humanidade, o medo da mortalidade e a fragilidade do mundo. Torna-se, então, uma obrigação das mulheres, principalmente das mães, proteger os homens desse conhecimento. É por isso que a pandemia provocou tamanho aumento no feminicídio – porque as mulheres estavam falhando em sua obrigação de tornar o mundo um lugar seguro para os homens, uma tarefa que ninguém pode cumprir.
O que estou dizendo aqui é que você não pode endereçar esse problema sem endereçar sua dimensão inconsciente, que é a coisa mais difícil – mas não impossível – de se fazer. Ao mesmo tempo, a maior visibilidade da violência masculina é ter um potencial político definitivo. Não só o movimento #MeToo foi crucial, mas também momentos como o julgamento de Dominique Pelicot e a imensa coragem de Gisèle Pelicot de torná-lo público para que então – em palavras que eu espero que ressoem por muito tempo e façam a diferença – “a vergonha mude de lado”.
Então, uma resposta mais simples para a sua pergunta é que não existe “primeiro passo”. Temos que seguir adiante concomitantemente em diferentes fronts contra a violência às mulheres. Voltando à sua pergunta sobre esperança e desespero, o ativismo em volta dessa questão, a manifestação cultural em relação às mulheres e em relação ao horror em Gaza – que deve ser crucialmente nomeado – são sempre motivos de esperança. Assim, tanto a ficção quanto a não ficção são essenciais.

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