Texto de Kalaf Epalanga sobre ‘A mais recôndita memória dos homens’
Leia na íntegra o texto que o autor angolano escreveu especialmente para a orelha do livro de Mohamed Mbougar Sarr
“A literatura é capaz de nos transportar para mundos desconhecidos e nos fazer refletir sobre questões profundas e complexas. Se você pegou este livro, é porque acredita nessa obviedade, e sim, nele o autor não só não nos engana como consegue a proeza de construir um romance que celebra a beleza da literatura e a importância da criação artística. Mas como explicar, caro leitor, do que um grande livro como este fala?
Uma das passagens mais deliciosas do romance responde da seguinte forma: ‘jamais tente dizer do que fala um grande livro. Ou, se você o fizer, eis a única resposta possível: não fala de nada’. Um grande livro sempre fala de nada e, no entanto, tudo está lá. É uma armadilha da opinião pública querer que um livro necessariamente fale de alguma coisa. A verdade é que só um livro medíocre, ruim ou banal fala de alguma coisa. Um grande livro não tem assunto e não fala de nada.
Mas como nem só do nada vive o ser humano, eis aqui um mapa de navegação. Se a curiosidade levá-lo até a próxima página, você mergulhará na história de Diégane Faye, um jovem escritor senegalês que procura desesperadamente T.C. Elimane, um autor africano que desapareceu após o sucesso inicial de seu livro O labirinto do inumano, considerado uma obra-prima por seu estilo inovador. Paris, Amsterdam, Buenos Aires e Dakar são os cenários pelos quais você será levado a visitar e a refletir sobre as vicissitudes da busca quase obsessiva pela identidade do escritor-fantasma acusado de plágio, inspirado na história verídica do autor maliano Yambo Ouologuem.
‘Bons artistas copiam, grandes artistas roubam.’ Vemos essa frase, uma das favoritas de Steve Jobs, sendo atribuída a Pablo Picasso, mas as palavras do pintor foram: ‘Os artistas menores pedem emprestado; os grandes artistas roubam’. Por sua vez, isso pode ter partido de T.S. Eliot, que disse: ‘Poetas imaturos imitam; poetas maduros roubam; poetas maus desfiguram o que tomam, e os bons poetas transformam-no em algo melhor, ou pelo menos em algo diferente’. Mas o direito à apropriação não é democrático. Daí esta obra ser também um convite à reflexão sobre as consequências nefastas do colonialismo e sobre quem tem direito aos espólios da língua e das ideias — os eternos invasores (descobridores) ou os perpétuos invadidos (descobertos)?
Lembre-se, você que abriu este livro, seu conteúdo não é para ser explicado. Mas se você procura por mais uma razão para continuar virando as páginas, além da referência a Roberto Bolaño no título, é importante mencionar as outras influências que gravitam por aqui, como Borges, Sabato e Gombrowicz. O narrador irá também revelar, na voz do personagem Musimbwa, que tudo pode ser sacrificado em nome de um ideal de criação.
Ser original sem realmente o ser é uma possível definição dada arte. No entanto, há uma ambiguidade cultural que nos acompanha e que pode se tornar uma armadilha para nossa destruição em curso. Alguns acreditam que essa ambiguidade é nosso verdadeiro espaço, nosso lar, a ser habitado da melhor maneira possível — como trágicos assumidos, como bastardos civilizacionais, bastardias das bastardias, nascidos do estupro de nossa história por outra, assassina. Mas essa interpretação pode ser apenas mais uma artimanha para nossa destruição em curso.
Desejo-lhe uma boa leitura!
Kalaf Epalanga”

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